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moacircaetano


INVENTÁRIO

 

O corpo humano tem
dois metros quadrados de pele
trinta e dois dentes
duzentos e seis ossos
duzentos e doze músculos
noventa e sete mil metros de veias e artérias
cinquenta mil cabelos
cinco milhões de pelos
vinte e cinco bilhões de neurônios
duzentos e vinte bilhões de células
sete octilhões de átomos
e um coração

 

Em mim
gravado em cada milímetro quadrado
seu nome
queimando em amor e paixão



 Escrito por moacircaetano às 13h19
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A SEXTA E A PUTA

Hoje a sexta é santa

Mas eu continuo puta.

Aberta a visitação.

 

Afinal, 

uns comem carne, outros não.



 Escrito por moacircaetano às 00h20
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QUINZE PRA UMA

 

A segunda-feira me bate à porta.

Enfia a cara entre os espaços vazios do domingo.

Deposita em meu fim de semana

As larvas malditas do tempo.

Que passa, depressa.

 

Preguiçoso, o dia não sabe

Que está prestes a morrer.

Insiste em seguir, teimoso,

Avançando os limites da madrugada.

 

Amanhã, sono e cansaço cobrarão seu preço

E os minutos percorrerão, eternos,

O caminho rumo ao tédio

E à consternação.

 

Deito.

Na boca, o sabor do senão.



 Escrito por moacircaetano às 07h25
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INVERNO

 

Nos dias de frio

tudo dói mais...

Um corte na pele.

O tanto-faz.

Topada na quina da mesa.

A falta de paz.

 

Em dias frios como agora

onde tudo se congela

antes da hora

e a janela

fica fechada 

pro que vem de fora...

 

...

 

Sabe aquela saudade que sinto de você

e que, quando passa frestas da porta,

uiva num longo e tristíssimo assovio?

 

Fica sempre pior quando faz frio...




 Escrito por moacircaetano às 07h38
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VERÃO

 

Calor!

Calor infernal!

Em dia como esses

Nada parece normal...

 

A vida se arrasta, leeeeennnnnntaaaaaaa...

O amor mal se aguenta

E os hormônios, à flor da pele

Tanto atraem quanto repelem.

 

E tudo fica meio amplificado

Pelas ondas invisíveis de quentura...

A raiva mal disfarçada,

O mormaço subindo na rua,

A impaciência com o chefe insuportável.

E esse tesão, quase palpável,

Bamboleando em sua cintura.

 

Em dias de calor como os atuais

O corpo sempre pede mais...



 Escrito por moacircaetano às 07h37
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GIRASSOL

Um raio de sol é coisa linda.

Dá vontade de segurá-lo nas mãos.

Dá vontade de prender, pegar pra si.

De costurá-lo em nossos desvãos.

 

Um raio de sol é um troço mágico.

E a gente quer que seja eterno.

A gente quer que seja só nosso.

Pra guardar pros dias de inverno.

 

Um raio de sol é poesia pura.

E a gente sabe que só dura

enquanto o dia está no céu.

Então queremos escondê-lo

na nossa sala de troféus.

 

Mas o raio de sol é esguio,

ô bicho escorregadio...

aquece nossas mãos, nossas costas,

espanta a nossa solidão,

planta o sim dentro do não,

dobra todas as apostas

e depois vai embora.

E a gente quase estertora.

 

Por isso, à noite, dormimos.

Pra sonharmos com o sol.

Por isso existem lâmpada, lanterna, farol.

 

Por isso os sonhos são importantes.

Enquanto se espera o raio de sol,

se é feliz antes!



 Escrito por moacircaetano às 07h47
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MILAGRE

 

 

Andar sobre as águas exige leveza...

Exige passos de pássaro, delicadeza,

exige que não se toque o chão, 

que se flutue acima da correnteza.

 

Andar sobre as águas não é mole não...

Demanda certo controle da respiração.

Uma paciência de mestre zen

e a dose certa de amém!

 

Andar sobre as águas é passatempo arriscado,

requer concentração e desprendimento.

Um equívoco no movimento

e morremos afogados...

 

Homens de pouca fé julgarão, coitados,

a tarefa impossível, uma crendice.

Mas é tão lindo o momento em que os pés 

se apoiam no azul da superfície!



 Escrito por moacircaetano às 07h46
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APOCALIPSE

 

 

Novos deuses caminham sobre a Terra...

 

Não exigem preces.

Incontestes,

nos roubam os dias,

nos roubam a vida.

 

Não querem oferendas,

mas sim nossas escolhas.

Nos prendem em bolhas.

 

Não querem dízimos.

Querem tudo, e querem agora.

Exigem cada uma de nossas horas.

 

Obedientes,

nos entregamos em sacrifício.

Nos rendemos aos vícios

e assinamos um contrato

entregando nossa alma.

 

Novos deuses caminham sobre a Terra!

Nos matam aos pouquinhos

e devoram a nossa calma...



 Escrito por moacircaetano às 07h44
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CONTÉM 1 DRAMA

 

 

Felicidade é que nem perfume...

Tem seu delicioso momento de cume

e depois vai sumindo, lentamente...

Lentalentaleeennntaaaameeeennnnteeeee...

 

A gente se agarra ao cheiro,

tenta fazer com que aquilo dure

o dia, o mês, o ano inteiro...

Queremos que a felicidade se misture

ao nosso próprio exagero

e que permaneça pra sempre...

 

Mas sempre

não existe...

e o perfume pouco a pouco desiste

da nossa pele, dos nossas mãos...

E é necessária nova aplicação.

 

O olfato e a felicidade

são delicadas flores, que mal nascem

e já querem ir embora, apressados...

Carregue sempre um pequeno frasco

e use em pequenos bocados!



 Escrito por moacircaetano às 07h43
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DAVI

Minha mais linda poesia
Ainda troca o R pelo L
E dorme embaixo de cobertor.

Minha poesia mais linda
Me reescreveu: amor.



 Escrito por moacircaetano às 21h18
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FELICIDADE

Felicidade é coisa sutil...
é dinamite sem pavio,
obra sem inauguração,
é fogo sem explosão...

Felicidade é coisa preguiçosa,
gosta de carinho, dengosa,
não tem necessidade de arroubos instantâneos,
comício, discurso, promessas...
Felicidade é feita de pequenas peças
que se juntam devagar, uma a uma...
Felicidade mora debaixo da unha.

Por isso desconfio dos muito alegres,
que anunciam suas venturas pelos ares,
aos quatro ventos, por todos os mares...
Acredito pouco no palhaço e sua alegria decorada...
Felicidade é coisa maturada
em horas, dias de cumplicidade,
de olhares e sorrisos e naturalidade...

Felicidade é coisa que nasce sem semente,
pois viveu desde sempre dentro da gente...



 Escrito por moacircaetano às 21h15
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A LÍNGUA, A MOÇA E O MOÇO

E enquanto a moça, deitada,
lhe agarrava os cabelos,
o moço dedicou-se, 
deliciado,
a entremear os novelos
do desejo que crescia, 
quebrando como louça
cada um dos recatos da moça.

Sua língua, passeante,
deslocava-se a todo instante
de um canto a outro de dentro dela,
que como cadela uivava,
que como criança sorria...
E todo o dia
não seria ainda tempo bastante
pra tantas variações de prazer.

E o moço ali, a percorrer
não somente os lábios vibrantes
(os da boca, os pequenos e os grandes)...
Naqueles momentos frementes
o moço percorria, entrementes,
todos os caminhos da moça,
(e que aqui ninguém nos ouça)
todas as estradas percorridas
desde que ela foi nascida,
todas as aulas de geografia,
os milhares de livros de poesia,
os namoradinhos inocentes,
o despontar dos primeiros dentes,
as brincadeiras de ciranda,
tudo o que lhe foi ensinado,
sua avó fazendo quitanda,
as manhãs no jardim ensolarado,
o acordar pra ir pro colégio,
a catequese – sacrilégio, 
o longo caminho até a faculdade,
as primaveras e suas flores,
cada uma de suas tardes,
todos os seus poucos amores,
as linhas mal-escritas no caderninho
escondido debaixo do travesseiro,
as noites de solidão e de vinho,
a falta de dinheiro,
os dias gloriosos de formatura...
toda a vida, nem tão fácil nem tão dura.

Ali, naqueles poucos segundos,
o moço e sua língua apaixonada
vagaram por todos os mundos
da moça que, deitada,
não sabia se ria ou se chorava.

Exausta, anestesiada,
a moça não disse nada,
feliz
como quem diz
tudo!

Mudo,
o moço beijou ainda suas coxas,
e com uma risada frouxa
abraçou-a, comovido.
O vestido,
testemunha,
assim como a pele debaixo das unhas,
sorriam, como quem rascunha
uma história de amor.

Lá fora, o calor...



 Escrito por moacircaetano às 21h13
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PUDOR

Muitos a supunham doidinha.
Mas é que era livre, somente,
a vida não mais lhe continha.

Resolveu tirar foto pelada...
afinal, é o seu corpo, não tem nada!

No momento exato da fotografia
cobriu a cabeça – quem diria?

Ufa! Deu tempo!
Só tinha vergonha 
de alguns dos seus pensamentos!



 Escrito por moacircaetano às 21h11
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AMOR

Amor bateu à porta...
ninguém atendeu...
"Ó de casa, vou entrando,
ô diacho, sou eu!"

Amor olhou pro lado de dentro...
não tinha ninguém à vista!
Povo danado, porta aberta:
amor é bom de conquista!

Amor pôs um pezinho pra dentro
e viu que ninguém fez reparo!
"Vou entrando, vou adentrando...
se alguém reclamar eu paro!"

Amor sentiu cheiro de comida
e sentiu a barriga roncar...
Bicho esfomeado, já sentou...
esperando pelo jantar!

Amor abriu a tampa do forno
e já foi pegando a panela.
Devorou o que tinha no peito dele
e rapou o fundo do tacho dela!

Amor satisfeito, de barriga cheia,
ligou o rádio e a televisão.
Fez xixi de porta aberta
e se deitou no colchão...

Quando o dono da casa notou,
amor já estava roncando.
O dono da casa ficou surpreso
e o amor foi ficando...

Amor é hóspede folgado,
nem sinal de ir embora.
Já se passaram dias
e ele nem reparava
no adiantado da hora!

Agora tá lá, o amor,
deitado no tapete da sala.
Não deixa o dono pensar.
Não deixa ninguém limpar a casa.
Fez um fuzuê do cão,
fez uma bagunça danada!

E o pior
é que o dono, esse bestalhão,
ainda ri do amor, morre de achar graça,
enquanto outra amiga, a solidão,
foi embora, que nem fumaça!



 Escrito por moacircaetano às 21h10
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PEQUENA FELICIDADE

A cada dia
o sol nasce novamente,
a vida segue, desobediente,
apesar de todas as indicações ao contrário:
"O mundo é perigoso, muito cuidado!"

E a despeito dos pessimistas de plantão,
o mundo continua girando, girando,
as filas continuam esperando,
os amantes permanecem em estado de paixão,
os músicos musicam,
os pedreiros fazem casas
e passarinhos batem asas.

A cada dia, de novo e de novo e de novo,
algo quebra a casca do ovo,
foge do lugar comum
e sobrevive, sem pejo nenhum.

E todo santo dia 
um par de olhos olha pra cima 
e agradece a revelação
antes do café, leite e pão!



 Escrito por moacircaetano às 21h10
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